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No mês dos leilões frustrados, Chile ao rubro e ‘Buy Brazil’, dólar sobe 5,8% e bate recorde

Moeda americana teve o segundo pior desempenho mundial em novembro: veja o que motivou a alta e o que vem por aí

Bárbara Leite

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Em novembro, dólar bateu recorde em três pregões consecutivos; BC entrou com reservas para travar alta–Foto: Pixabay

Novembro foi cheio de volatilidade para o dólar, que acumulou alta de 5,8% no mês, o maior aumento desde agosto, deixando o real com o segundo pior desempenho mundial, de acordo com uma cesta de 33 moedas monitoradas pela Bloomberg. A moeda brasileira só perdeu para o peso chileno, que sofreu com a intensificação dos protestos no país que levaram a demissões no governo e ao início do processo de mudança da Constituição.

Também foi o mês em que a moeda americana ante o real bateu três recordes históricos consecutivos–o último nos R$ 4,259. Nesta sexta (29), último dia útil do mês, a moeda voltou a subir e ficou em R$ 4,24.

Já o Ibovespa, índice de referência da Bolsa brasileira, emendou o terceiro mês de alta, ao subir 0,95% em novembro. O avanço, porém, é menor que os 2,36% de outubro.

Reforma da Previdência aprovada

A alta da moeda americana ocorreu mesmo após a esperada aprovação da reforma da Previdência, que foi promulgada no mês e que deve gerar uma economia de R$ 800 bilhões aos cofres públicos em dez anos. As mudanças previdenciárias eram vistas como catalizadoras para trazer capital ao país. A moeda começou a frear a alta após a reforma e já havia furado os R$ 4 e caminhava para os R$ 3,90.

PIB cresce pouco

O problema é que o Brasil ainda cresce a patamares baixos; neste ano, o Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas em um país) deve subir no máximo 1%, longe dos 2% previstos no início do ano, quando o novo governo com agenda liberal tomou posse.

O alto desemprego, que impede a retomada mais forte do consumo, e a queda das exportações, impactadas pela crise na Argentina e a desaceleração econômica global, reflexo da guerra comercial entre EUA e China, prejudicaram o crescimento econômico brasileiro e “afugentaram” investidores, apesar da aprovação da reforma.

Chile e Bolívia

No mês também afetou o real o aumento das tensões no Chile, com os protestos contra a tarifa do metrô de Santiago virando reivindicações nacionais como desigualdade social, e na Bolívia, após a renúncia de Evo Morales da presidência acusado de fraudar as eleições, que levaram a América Latina a ser penalizada como um todo.

Lula solto e falas de Guedes

O real não escapou do mau humor, que foi agravado pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de considerar ilegal a prisão após condenação em segunda instância, entendimento que soltou o ex-presidente Lula, e pelas recentes declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes.

O ministro avisou o mercado para se “acostumar” ao dólar mais alto “por um tempo”, chegando a dizer que não seria estranho se “alguém pedisse um AI-5”, um instrumento da ditadura militar que fechou o Congresso e tirou as liberdade individuais dos brasileiros. Ele se referia a um cenário de aumento da polarização política com a soltura de Lula.

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Também assustaram os dados das exportações de novembro, que, entretanto, foram revistos pelo Ministério da Economia, e passaram a mostrar um saldo positivo da balança comercial (exportações menos importações) de US$ 2,7 bilhões.

Queda dos juros no Brasil maior do que nos EUA

Outro motivo que explica a alta do dólar no mês, que é também um dos fundamentos para a pressão da moeda, são as quedas da taxa básica de juros, a Selic, em ritmo maior aos promovidos pelo Fed (Banco Central dos EUA). O BC brasileiro sinalizou que vai cortar a taxa no país em mais 0,50 ponto percentual, para 4,50% ao ano, enquanto os EUA devem fazer uma pausa nos cortes.

Investidores que ganham com a especulação dos juros têm saído do país devido à queda da Selic, que deixou menos atrativo trazer dinheiro ao país. Eles estão preferindo deixar seu dinheiro em títulos americanos ou na Europa, mesmo que por lá estejam pagando taxas negativas, do que trazer os recursos ao Brasil, num movimento agravado pela aversão global ao risco.

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Esse sentimento de aversão tem sido intensificado pela guerra comercial entre os EUA e China, que chegou a sinalizar uma recessão mundial. Em momentos de incertezas, os investidores correm para comprar dólar, um investimento considerado mais seguro.

Frustração com leilões do pré-sal

Mas o grande estopim para a alta do dólar foi a frustração com a participação de petrolíferas estrangeiras nos leilões do pré-sal, realizados no início do mês.

Era esperado que o petróleo atraísse investimento estrangeiro, aumentando o fluxo de dólares neste fim de ano. A expectativa era que as estrangeiras pagassem os bônus de US$ 25 bilhões, dinheiro que não vai entrar, já que os leilões foram esvaziados. Apenas a Petrobras e duas estatais chinesas (com posições irrisórias) participaram dos leilões, que não tiveram ofertas para vários campos.

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O modelo da licitação, que envolvia negociação de compensações à Petrobras, afastou os investidores. Sem fluxo, o dólar sobe.

Guerra comercial e Hong Kong

Também foi o mês continuou a novela de assina ou não o acordo comercial parcial, que pode travar a imposição de novas tarifas.

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Nesta semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, sem saída, assinou a lei aprovada pelo Congresso americano, que apoio aos manifestantes pró-democracia em Hong Kong, decisão que irritou os chineses e pode complicar os avanços das negociações comerciais entre os dois países.

Recomendações de compra: Brasil

Em novembro, seis bancos–Morgan Stanley, JP Morgan, UBS, Credit Suisse, Bradesco e BTG Pactual–, recomendaram aos seus clientes comprar ações do Brasil, relatórios que tendem a atrair capital, e dar uma aliviada no dólar, que também sofre com a posição “comprada” dos investidores estrangeiros na Bolsa, que se beneficiam com a alta da moeda americana.

Dezembro: mais pressão

Apesar das recomendações puderem trazer algum fluxo, e ajudarem a conter a alta, é esperado que o dólar siga pressionado em dezembro, mês em que as multinacionais vão continuar mandando seus lucros ao exterior.

O Banco Central (BC), que tem usado as reservas para dar mais liquidez e atenuar a alta do dólar, já sinalizou que se a moeda estiver disfuncional, a autoridade entra para evitar a disparada.

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No entanto, não está fora de cogitação a moeda passar dos R$ 4,30, caso algum fator atípico ocorra, como o fim das negociações entre EUA e China.

Muitos turistas, diante do dólar alto, já mudaram seus planos de viagens ao exterior, e vão passar as festas de fim de ano no Brasil. A gasolina já vem subindo, e o preço do pãozinho e do macarrão também deve aumentar.

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